Tratamento do Complexo do Ombro segundo a visão da Filosofia Osteopática

Prof. Ft. Bruno Hernandes

Introdução

Sobre o complexo articular do ombro vale destacar três observações importantes:

  1. O complexo articular do ombro é formado por cinco articulações, sendo três articulações que possuem estrutura cápsulo-ligamentar, membrana e líquido sinovial, denominadas de articulações verdadeiras (glenoumeral, acromioclavicular e esternoclavicular), e outras duas articulações que são consideradas como plano de deslizamento (articulação escapulotóracica e subacromial).
  2. É relevante considerar os músculos que integram o manguito rotador, sendo eles: músculo supraespinhal, músculo infraespinhal, músculo redondo menor e músculo subescapular. Tais estruturas desempenham três funções básicas:
    • Potencializam as rotações da articulação glenoumeral (rotação lateral) durante o gesto de abdução, liberando assim o choque da tuberosidade maior do úmero com acrômio (ação dos músculos subescapular, redondo menor e infraespinhal).
    • Participam da estabilidade dinâmica da articulação glenoumeral por meio da ação dos músculos subescapular (anteriormente) e infraespinhal (posteriormente).
    • Proporcionam um compartimento fechado importante para a nutrição das superfícies articulares da cabeça do úmero e da cavidade glenoidal.
  3. As condutas de reabilitação do complexo do ombro exaltam que o posicionamento e a qualidade do movimento da escápula em relação ao gradil costal são de extrema importância para boa funcionalidade desse complexo.

A filosofia osteopática que abrange conceitos de integralidade do corpo permite uma análise de tratamento bastante ampla para o complexo articular do ombro levando em consideração intervenções locais ou em sistemas correlatos por intermédio anatômico.

A função do osteopata é manter o compromisso com a ideia original da unicidade do corpo proposta pelo Dr. Andrew Taylor Still e ao mesmo tempo eleger de maneira precisa (por meio de ferramentas avaliativas) qual sistema teria maior relevância para ser abordado em uma conduta clínica.

Visão osteopática

O ombro e o componente musculoesquelético

As incapacidades funcionais do complexo do ombro observadas em maior proporção nas abordagens clínicas osteopáticas estão associadas ao desequilíbrio mecânico dos músculos que realizam a rotação interna da articulação glenoumeral. Destaque para o músculo peitoral maior que possui ponto de apoio na face anterior da cabeça do úmero (sulco intertubercular) e na margem medial e inferior da clavícula. Esse músculo, quando espasmado, é capaz de fixar a disfunção artrocinemática da cabeça umeral em anterioridade, colocando também a clavícula em rotação anteroinferior (Figura 1).

 

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Figura 1. Disfunção de anterioridade da cabeça umeral e rotação anteroinferior de clavícula.

Fonte: RICARD, F. Medicina Osteopática. Miembro Superior: tomo 1, Cintura Escapular y hombro. Madrid: Escuela de Osteopatía de Madrid, 2011.

Outra restrição artrocinemática comumente encontrada é a superioridade da cabeça umeral, que tem sua fixação associada ao espasmo do músculo deltoide (Figura 2).

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Figura 2. Disfunção de superioridade da cabeça umeral.

Fonte: Ricard, François. Medicina Osteopática. Miembro Superior: tomo 1, Cintura Escapular y hombro. Madrid: Escuela de Osteopatía de Madrid, 2011.

1. Repercussão clínica das disfunções sobre os tecidos anatomicamente associados:

Disfunção de Anterioridade da Cabeça Umeral:

  • A limitação da rotação externa automática durante a abdução do ombro causa impactos sobre a bursa subacromial e tendão do músculo supraespinhal.
  • Tensões podem ocorrer sobre a porção longa do tendão bicipital ocasionando irritações.

Disfunção de Rotação Anteroinferior da Clavícula:

  • Pressões sobre as estruturas vasculares e neurais na região da entrada torácica superior (diminuição do espaço entre clavícula e primeira costela).

Disfunção de Superioridade da Cabeça Umeral:

  • A disfunção pode causar sofrimento sobre o tendão do músculo supraespinhal, bursa subacromial e ligamento coracoacromial.

2. Ombro e segmento cervical

Fundamental em avaliação uma análise minuciosa das vértebras do segmento cervical, pois todos os músculos que estão associados ao complexo do ombro são controlados por nervos que emergem do plexo braquial. As desordens do ombro em algumas situações fazem conexão com problemas originados na cervical.

3. Ombro e segmento torácico alto (controle autonômico simpático)

As fibras autonômicas simpáticas que emergem dos cinco primeiros níveis torácicos são direcionadas ao membro superior para controle da sudorese, piloereção e vasomotricidade. Bloqueios artrocinemáticos nessas regiões interferem diretamente na irrigação sanguínea dos principais músculos do ombro promovendo a quebra da hosmeostase. Nessas condições, o trabalho desses segmentos favorece o princípio filosófico da lei da artéria descrita por Dr. Still.

Quando o componente musculoesquelético do ombro responderá bem a um tratamento direto (local)?

O osteopata francês François Ricard D.O., MRO em seu livro Colección de Medicina Osteopática – Miembro Superior Cintura Escapular y Hombro enfatiza, por diversas vezes, que uma das formas do componente musculoesquelético entrar em perturbação seria os eventos que incluem movimentos a esse sistema. Nessas condições, a abordagem local de tratamento do complexo articular do ombro apresentaria melhores resultados em situações que envolvessem episódios como quedas, movimentos forçados, traumatismo direto e movimentos repetitivos. O que não estivesse na ótica dessa análise seria associado aos desequilíbrios de outros sistemas, que, por relações anatômicas ou biológicas, podem repercutir sobre o ombro.

Os sistemas e as vias de relações são descritos a seguir:

O ombro e o componente postural

O desequilíbrio do captor podal evidencia uma cadeia de adaptações ascendentes com a criação de forças anormais contrárias. Um retropé valgo, por exemplo, seria capaz de posicionar o plano escapular em posterioridade, aumentando dessa forma a cifose torácica. Tal alteração postural facilitaria o deslocamento da cabeça umeral em anterioridade, influenciando ao mesmo tempo no posicionamento da escápula em relação ao gradil costal (Figura 3).

 

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Figura 3. Consequências posturais dos pés valgos.

Fonte: BRICOT, B. Posturologia Clínica. São Paulo: Cies Brasil, 2010.

O ombro e o componente visceral

            A cavidade abdominal é revestida por um tecido conjuntivo chamado de peritônio parietal. O peritônio parietal das vísceras abdominais mais altas (estômago, fígado, vesícula biliar e uma pequena porção do duodeno) recebe a inervação sensitiva do nervo frênico. Tal nervo faz correlação com complexo articular do ombro, pois possui conexão com fibras do plexo cervical e braquial (Figura 4). A mesma condição pode ser descrita para o tecido que reveste o coração e o pulmão (pleura/pericárdio).

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Figura 4. Conexão do nervo frênico com vísceras e fibras nervosas do segmento cervical.

Fonte: Internet

Outra relação diz respeito à capacidade de transmissão de tensão pelo tecido conjuntivo. O revestimento abdominal é conectado ao revestimento torácico, que, por sua vez, se une a fáscia cervical fazendo contato com a fáscia dos músculos que envolvem o complexo articular do ombro (Figura 5).

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Figura 5. O sistema fascial.

Fonte: PAOLETTI, S. The Fasciae: Anatomy, Dysfunction & Treatment. Seattle, USA: Eastland Press, 2006.

O ombro e o componente craniano

O osteopata Francês Léopold Busquet descreve a estruturação do corpo por meio de cadeias fisiológicas. De acordo com sua análise, seriam por esses “circuitos” que as forças tensivas fariam suas propagações.

Pelo complexo articular do ombro percorrem as cadeias fisiológicas cruzadas, cuja sua ancoragem é feita na região dos ossos temporais; dessa forma, disfunções osteopáticas pertinentes a essa estrutura craniana poderiam ter suas repercussões sobre o ombro (Figura 6).

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Figura 6. Relação do ombro com osso temporal.

Fonte: BUSQUET, L. As cadeias fisiológicas: tratamento do crânio. 2. ed. Barueri, SP: Manole, 2009.

O ombro e componente perceptivo

Considerando os aspectos das respostas biológicas sobre os tecidos; no ombro, os sintomas podem surgir como uma reação às percepções de desvalorização e impotência. As sensações que remetem a essas percepções fazem relação com a ausência de carinho, de acolhimento, amparo ou proteção. A necessidade de rejeitar ou afastar-se de algo também fazem parte do contexto.

Nessa visão, as queixas apresentadas sobre o ombro estão associadas à fase de resolução pós-conflito.



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