Osteopatia na dislexia

Escrito por: Prof° Ft. Hermínio Marcos Teixeira Gonçalves
Docente do IDOT

Dificuldades de aprendizagem é um tema que vem crescendo em importância para especialistas como educadores, psicólogos e médicos por se tratar de um grave problema social.1 Podem causar sérias consequências ao longo de toda  vida de um ser humano envolvendo também a família, as atividades acadêmicas e sociais.2 De 15 a 20% das crianças em idade escolar precoce tem dificuldade de aprendizagem e um pobre resultado escolar. Esta estimativa pode chegar até 30 a 50% nos primeiros seis anos de escolaridade.3 No Brasil, 40% das crianças em séries iniciais de alfabetização, apresentam dificuldades escolares.4 O grande problema é que estes transtornos de aprendizagem podem persistir por toda vida.5

Experiências vivenciadas pelo indivíduo, em ambiente adequado, favorecem uma boa construção do conhecimento. O processo de aprendizagem envolve a integração de várias funções do sistema nervoso, favorecendo a adaptação do indivíduo ao ambiente.6

A aquisição e o processamento das informações ocorrem em três etapas: o input, o processamento e o output. O input ocorre através das vias aferentes visual, auditiva, somatossensoriais (tato, olfato, paladar), levando ao cérebro a informação sensorial captada. O processamento ocorre no nível da percepção (gnosis) e na área cortical motora (práxis). Para que o processamento das informações ocorra, é necessária uma integração entre áreas corticais e subcorticais, nas quais as informações são organizadas, complementadas e armazenadas. Cabe às vias motoras eferentes executar resposta efetora ou de output.7

Na leitura, a informação processada depende da integração de várias habilidades (atenção cognitiva, linguística, mnésia), somadas a fatores e condições comportamentais do desenvolvimento.Para uma aprendizagem suficiente, a atenção e a memória tem um papel essencial. A memória trabalhada faz a conexão entre informações antigas, aprendidas e recentemente adquiridas.7 A praxe é considerada como um produto final da cognição6.

Diversos fatores podem interferir na cognição dos indivíduos, é importante certificar-se se não existem causas ambientais ou endógenas (intrínsecas). As causas intrínsecas podem ser decorrentes de condições orgânicas, perturbações do desenvolvimento e perturbações emocionais ou comportamentais. As causas orgânicas mais comuns são doenças físicas graves, doenças congênitas ou adquiridas do sistema nervoso central e o uso de medicamentos. As causas emocionais e comportamentais mais frequentes são deficiência mental, perturbações do espectro autista, estado limítrofes de funcionamento cognitivo, perturbações específicas de aprendizagem ou distúrbios de aprendizagem (como dislexia, disgrafia e discalculia), perturbação cognitiva não verbal e transtornos de déficit de atenção e hiperatividade (TDAH).8

Os distúrbios de aprendizagem, caracterizam-se por déficit cognitivo que interfere com a aprendizagem da leitura, escrita e cálculo.9 Entre os distúrbios de aprendizagem, as dificuldades com matemática correspondem a 6% dos casos. As dificuldades na escrita ocorrem em 8 a 15% dos pacientes e podem resultar do comprometimento motor, das alterações da percepção espacial, memória, atenção e da mudança de linguagem. Os casos de dificuldade de leitura correspondem a 80% de todos os casos de distúrbios de aprendizagem.7

Em 1895, James Hinshelwood, cirurgião óptico de Glasgow, Escócia, publicou um artigo na revista The Lancet sobre a memória visual e a cegueira de palavras.10 Este artigo inspirou o médico inglês Walter Pringle Morgan a publicar no British Medical Journal em 1896, a descrição do caso de uma criança inteligente de 14 anos, que era incapaz de aprender a ler. Sendo este considerado um dos primeiros relatos sobre a cegueira congênita de palavras.11

A dislexia é definida pela Federação Mundial de Neurologia como distúrbio ou transtorno de aprendizagem da leitura, que surge apesar de inteligência normal, ausência de perturbações sensoriais ou neurológicas, instrução escolar adequada e oportunidades socioculturais suficientes.12 O National Institute of Health Americano define a dislexia como “um dos vários tipos de distúrbios de aprendizagem.”13 A Organização Mundial de Saúde propôs a inclusão da dislexia no CID-10 como “F81: perturbação específica do desenvolvimento das aptidões ou das aquisições escolares” entre as doenças mentais e neurológicas.14

A Dislexia pode ser subdividida em adquirida e de desenvolvimento. A Adquirida ocorre como consequência de lesões cerebrais, onde o aprendizado da leitura e escrita, adquirido normalmente, é perdido pós-lesional. A de desenvolvimento existe uma deficiência específica da representação fonológica com origem ambiental, referente a forma de aprendizado escolar.4

A leitura envolve um processo linguístico, anatômico e neuropsicológico. Dificuldade ou inexistência da correspondência do processo de emissão de sons (fonemas) com os símbolos gráficos (grafemas), pode gerar distúrbios de aprendizagem, conhecidos por dislexia.15

Quanto a epidemiologia, de 5 a 17% da população apresenta dificuldade na leitura, escrita, matemática e em outras áreas.2 Foi detectada em cerca de 6 a 10% das crianças escolarizadas na França12 Afeta ambos os gêneros com maior frequência no masculino (2:3 a 4:5); acredita-se que devido a altos níveis de testosterona fetal sobre áreas envolvidas com habilidades de linguagem durante o período tardio da gravidez.1  Disléxicos avaliados pelo ambulatório de Neurodificuldades de Aprendizado da FCM/UNICAMP, entre 1994 e 2002, 71,8% eram do gênero masculino.15

Na etipatogenia; a maioria dos disléxicos apresenta déficits gerais nestes sistemas, havendo uma forte correlação entre dislexia, desequilíbrio de postura e o sistema de propriocepção.16 Os desequilíbrios de postura e o envolvimento do sistema de propriocepção em pacientes disléxicos foram verificados pelo médico Luís Carpinteiro, Portugal, e descritos por Martins da Cunha.17

O oftalmologista Orlando Alves da Silva caracterizou-os melhor como parte de uma síndrome decorrente de distúrbios das vias aferentes – visão, audição e somatossensorial (tato, gustação, olfato), que constituem a percepção sensorial da informação cerebral (input).O processamento das informações periféricas distorcidas no nível de áreas corticais perceptivas, produz uma resposta efetora motora inadequada (output).12

A Síndrome da Deficiência Postural caracteriza-se por: disfunção da propriocepção, perturbação da simetria corporal, adoção de posturas incorretas, perturbação do esquema corporal e reformulação do esquema corporal. Definida como dislexia de evolução levando as disfunções na recepção, transmissão, integração das informações  proprioceptivas. O sistema proprioceptivo é formado por receptores encontrados em todos os músculos do organismo, principalmente no olho, nos tendões, nas articulações e na planta dos pés. A propriocepção ocular e a corporal representam pontos-chaves que regem a postura. Em um estudo com 60 crianças com dislexia, todas apresentavam algum distúrbio do sistema de propriocepção ocular. Apresenta diferentes formas clinicas dos sinais e sintomas que são: muscular, pseudo vertiginosa e cognitiva.12

O quadro clinico da forma muscular apresenta fadiga, enurese noturna, hipotensão ortostática, taquicardia, lipotimia, pés e mãos frias, palidez facial, astenopia, diplopia ou poliopia, bruxismo, mordedura involuntária de língua e bochecha e dor retro-ocular, torácica, abdominal, articular, lombar e cervical.17

O quadro clínico da forma vertiginosa apresenta vertigem, agorafobia, síndrome do pânico, cinetose, quedas, entorses, esbarrar em objetos, dificuldade em dirigir, ansiedade e depressão; resistentes ao tratamento específico.12

O quadro clínico da forma cognitiva apresenta déficit de atenção, alteração da memória, surdez perceptiva, hiperatividade, dificuldade de decodificação da leitura e de ler palavras longas ou complexas.12  Além de disfagia, disgrafia, discalculia, dispraxia, discronia e distúrbios de lateralidade, equilíbrio postural, visão espacial e localização de objetos no campo visual esquerdo. 1

Os sinais oculares são: insuficiência de convergência, exoforia para perto, movimentos sacádicos, movimentos erráticos de regresso na leitura, confusão de linhas, tempo de fixação aumentado, localização imprecisa das silabas e alteração da percepção de contornos.12

Para o correto diagnóstico é necessário Identificar fatores extrínsecos, uma anamnese detalhada, verificar o neurodesenvolvimento, verificar o biorritmo e analisar comorbidades como diagnóstico diferencial. Aplica-se testes neuropsicológicos clássicos e os testes específicos que são: questionário específico para SDP, exame oftalmológico completo, teste de Maddox, PED ao sinoptóforo, potencial  visual evocado (PVE) e exame postural. Utilizando o exame da convergência ocular, inspeção postural, teste de localização espacial dos MMII, teste de localização espacial dos MMSS, avaliação da simetria de rotação da cabeça no plano horizontal, avaliação da simetria de extensão da cabeça no plano sagital e avaliação dos pseudoescotomas no sinoptóforo.2

O que se observa é que vários autores têm demostrado a eficácia do tratamento dos distúrbios da propriocepção ocular e sistêmica em pacientes com dislexia e distúrbios de aprendizagem.12  A novidade trazida pela escola portuguesa para os casos de dislexia e distúrbios de aprendizagem que apresentam a SDP é o tratamento que inclui a prescrição de óculos com lentes prismáticas de baixa potência (de até 4 dioptrias prismáticas), denominados de prismas ativos. Eles agem modificando os receptores proprioceptivos dos músculos extraoculares. Quando se atua sobre os receptores proprioceptivos oculares, pela lei dos canais de Gagey, atua-se em todo o sistema postural.17  O tratamento direcionado aos receptores proprioceptivos gerais inclui a reprogramação postural, com orientações sobre como sentar, deitar, andar, ler, trabalhar ao computador, permanecer em pé e exercícios respiratórios.2

A Osteopatia tem um amplo espectro de ferramentas para atuar e auxiliar o tratamento da dislexia atuando de forma direta na facilitação de entradas sensoriais periféricas, correção captor ocular, palmilhas de estimulação proprioceptivas, harmonização de apoio dentário e oclusão, reeducação de praxia lingual, reeducação vestibular, normalização da biomecânica craniana, liberação Neuro-vasculofascial e nos aspectos biológicos da Osteopatia Informativa.

Referências

  1. Habid M. The neurological basis of developmental dyslexia: overview and working hypothesis. Brain, 2000; 123 pt 12:2373-99.
  2. Ventura LO, Travassos SB. Dislexia de desenvolvimento e síndrome da deficiência postural. In: Nakanami CR, Zzin A, Belfort Jr. R, editores. Oftalmopediatria. São Paulo: Roca, 2010. p.191-206.
  3. Rotta NT, Ohlweiler L, Riesgo RS. Transtornos da aprendizagem: abordagem neurobiologica e multidisciplinar. Porto Alegre: Armed, 2006.
  4. Schirmer CR, Fontoura DR, Nunes ML. Distúrbios da aquisição da linguagem e da aprendizagem. J Pediatr (Rio J), 2004; 80(2 supl):S95-S103.
  5. Lagae L. Learning disabilities: definitions, epidemiology, diagnosis, and intervention strategies. Pediatr Clin North Am, 2008; 55(6): 1259-68,vii.
  6. Fonseca V. Cognição, neuropsicologia e aprendizagem: abordagem neuropsicológica e psicopedagógica. Petrópolis, Rio de Janeiro: Vozes, 2008; p. 1-83.
  7. Siqueira CM, Gurge-Giannetti J. Mau desempenho escolar: uma visão atual. Rev Assoc Med Bras, 2011; 57(1):78-86.
  8. Matos PP. Insucesso escolar. Dossier: neurodesenvolvimento infantil. Ver Port Clin Geral, 2009; 25:696-701.
  9. American Psychiatric Association. Diagnostic and statistical manual os mental disorders. 4ª ed. Text revision. Washington DC, 2000
  10. Hinshelwood J. Word-blindness and visual memory. Lancet, 1895; 2:1564-70.
  11. Morgan WP. A case of congenital word-blindness. Br Med J, 1896; 2(1871):1378.
  12. Quercia P, Seigneuric A, Chariot S, Vernet P, Pozzo A, Bron A et al. [Ocular proprioception and developmental dyslexia. Sixty clinical observations]. J Fr Ophtalmol, 2005; 28(7):713-23. French.
  13. Capovilla AGS, Smythe I, Capovilla FC, Everatt J. Adapatação brasileira do “International Dyslexia Test”: perfil cognitivo de crianças com escrita pobre. Temas Desenvolv, 2001; 10(57):30-7.
  14. Organização Mundial de Saúde. CID-10 Classificação Estatística Internacional de Doenças e Problemas Relacionados à Saúde. 10ª ver. São Paulo: EDUSP, 2003.
  15. Arduini RG, Capellini AS, Ciasca SM. Comparative study of the neuropsychological and neuroimaging evaluations in childrens with dyslexia. Arq Neuropsiquiatr, 2006; 64(2B):369-75.
  16. Pozzo T, Vernet P, Creuzot-Garcher C, Robichon F, Bron A, Quercia P. Static postural control in children with developmental dyslexia. Neurosci Lett, 2006; 403(3):211-5.Epub 2006 Jun 23.
  17. Cunha HM. Syndrome de déficience posturale. In: Simon L. Actualités en rééducation fonctionnelle et réadaptation. 4 série. Paris: Masson, 1979; p. 27-31.

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