Os Resultados do Ajuste Postural em Atletas de Alto Rendimento

Dr. Hellington Bonifácio Vinhotte

 Contextualização 

Há evidências de que o nosso corpo é uma unidade e que todas as estruturas de alguma forma se interrelacionam, podendo um estímulo gerar diversas respostas. O homem adulto é o único totalmente bípede dentre os mamíferos, característica pela qual, devido ao meio em que vivemos, estamos sofrendo estímulos constantes e buscamos incessantemente o equilíbrio, e como resposta o sistema tônico postural cria estratégias para nos mantermos em equilíbrio, seja ele estático ou dinâmico. Segundo Bricot (2001), o corpo humano busca se equilibrar dentro dos seus desequilíbrios.

A osteopatia postural é uma filosofia que se utiliza de diagnóstico e tratamento para integrar a nível cerebral (formação reticular, colículos, núcleos da base, cerebelo, tálamo, corpo caloso, comissuras, diencéfalo, e córtex sensorial e motor) as informações vindas dos pés, olhos, sistema dento-oclusal, sistema vestibular, pele e vísceras. Esses órgãos exercem a função de “captores posturais”, que através das vias de comunicação, Sistema Nervoso Periférico (SNP), integram os captores posturais ao Sistema Nervoso Central (SNC), processando essas informações. Como resposta, alteram a intensidade do tônus muscular, tendo por objetivo a estabilização do corpo nas condições externas e internas, permitindo movimentos coordenados e estáveis, mantendo e determinando a postura.

No atleta de alto rendimento isso não é diferente, porém os estímulos e atitudes de movimento frente ao esporte praticado podem ser levados ao extremo, gerando repercussões sobre todo o corpo. Geralmente, pensamos que um trauma é uma lesão grave que causa danos. Essa definição engloba diferentes graus de forças externas atuando sobre o corpo. Do ponto de vista médico, os pacientes são frequentemente considerados saudáveis, mesmo não estando iguais ao que eram antes de sofrerem o trauma. Uma lesão traumática dos nervos normalmente não se revela numa imagem clínica, reconhecida e bem definida, ou quando há ou não uma sintomatologia. Porém, podemos encontrar grandes perturbações do sistema nervoso periférico. Devido às suas inconsistências e falta de evidências, os sintomas e alterações posturais são negligenciados.

O nervo somente funcionará perfeitamente quando conseguir mover-se livremente dentro de suas estruturas. Muitas vezes as lesões funcionais dos nervos desenvolvem-se após doenças neurotrópicas ou como consequência de desequilíbrios posturais. Mais frequentemente derivam de forças e energias mecânicas: fricção, pressão (compressão) ou forças de tração (alongamentos), todas afetando os nervos. Para originar lesões, um trauma não necessita ser grave. Amiúde, é uma questão de microtraumas repetitivos, por exemplo: um movimento não fisiológico, uma entorse inofensiva, postura incorreta. Embora também apresentemos disfunções neurais mesmo em paciente sem sintomatologia. Segundo Villeneuve (1991), essas alterações ocorrem, sobretudo, nas emergências neurais, ponto de maior tensão, repercutindo sobre o Sistema Tônico Postural (STP), representadas com básculas e rotações das peças ósseas, resultando nas incapacidades funcionais e nas posturas viciosas estáticas.

A osteopatia postural vem para identificar e corrigir as alterações posturais e hoje integra as informações advindas dos captores posturais disfuncionais ao SNC. Por meio do teste informacional maleolar, identificamos os plexos em disfunção e com as técnicas de saturação neural e sideração muscular, realizamos as correções.

Os estudos na área são escassos, o que dificulta a pesquisa e a atuação do osteopata na sua prática clínica. Algumas vezes o foco do osteopata está no tratamento apenas dos sintomas do paciente; no entanto, o tratamento dos captores posturais e das vias de comunicação oferece um recurso a mais na resolução das desordens, eliminando a postura viciosa estática e as incapacidades funcionais, o que justifica a realização deste estudo.

O trabalho foi realizado com o intuito de afirmar qualitativa e quantitativamente a existência de alterações posturais ocasionadas pelos distúrbios neurais e demonstrar os resultados das manobras posturais e suas repercussões sobre o STP.

Objetivo

O estudo teve como objetivo avaliar os efeitos do tratamento nas disfunções dos captores posturais e do SNP por meio das técnicas osteopáticas posturais e determinar a diferença na distribuição de pressão plantar em atletas de futebol de alto rendimento.

 

Materiais e Métodos

O estudo iniciou no dia 23 de fevereiro de 2016, a convite do aluno de Osteopatia do IDOT, na Unidade Londrina/PR, e fisioterapeuta de um clube da primeira divisão do campeonato brasileiro, Lucas Rafael Heleno. O coordenador do departamento de fisioterapia do clube, Matheus Finatti, ficou responsável por selecionar os jogadores que seriam avaliados e tratados durante aquele dia. O convite se estendeu ao professor do IDOT, Gustavo de Oliveira Martins, para que fizesse parte da equipe, ficando responsável pela avaliação da baropodometria e confecções das palmilhas.

Foram selecionados 10 atletas profissionais do clube, que apresentavam algum tipo de sintoma. Esses atletas foram avaliados, tratados e reavaliados, segundo a metodologia desenvolvida pela cadeira de Osteopatia Postural do IDOT, priorizando a avaliação e correção dos captores posturais (podal, ocular, vestibular, sistema dento-oclusão e cicatrizes) e suas vias de comunicação (SNP).

 

Delineamento

Os atletas foram informados sobre a metodologia a ser desenvolvida e as intervenções realizadas durante o período estabelecido, assim como a avaliação do equilíbrio estático, feita por meio do baropodômetro da marca S-Plate, modelo powered by medicapteurs (figura 1).

A avaliação baropodométrica bipodálica foi estabelecida com os indivíduos sobre a plataforma com apoio dos dois pés, sempre descalços e com os braços relaxados ao longo do corpo, durante 30 segundos para calibração do aparelho. Essa avaliação foi realizada antes e após 30 minutos ao tratamento proposto.

Durante as intervenções, foram tratadas todas as disfunções dos captores posturais, com a utilização de palmilhas corretivas, ginásticas oculares, liberação cicatricial e técnicas de saturação neural e sideração muscular.

fig1

Figura 1: Baropodômetro S-Plate modelo powered by medicapteurs.

Fonte:

 

Métodos e Avaliação

O método avaliativo foi composto da análise postural, por meio do programa Kinovea, avaliação dos captores posturais (olho, sistema dento-oclusal e cicatrizes patológicas), Teste Informacional Maleolar (TIM), descrito por Villeneuve, e a baropodômetria.

O baropodômetro nos permite mensurar alterações quanto à distribuição (em percentual), entre o antepé e retropé bilateralmente, área (cm2), antepé, retropé, área total bilateralmente e pressão (em percentual), antepé, retropé e pressão total entre os dois pés, como demonstrado na figura 2.
check here

 fig2a

A

 fig2b

B

Figura 2: Alterações na distribuição de áreas, pressão e distribuição de peso antes, 2A, e após 30 minutos da estimulação, 2B, da realização das correções posturais.

Fonte:

 

Resultados

Os participantes apresentaram grandes alterações podais e do SNP. Alterações que influenciavam diretamente sobre o sistema tônico postural, gerando básculas, rotações e alterações do plano escapular.

Os participantes foram submetidos às correções osteopáticas e posturais, sendo tratados com as técnicas de saturação neural e sideração muscular e corrigidos com a utilização das palmilhas de correções.

Os maiores distúrbios foram relacionados aos planos sagital, plano escapular anterior, e no plano frontal, básculas e rotações de cintura escapular e pélvica, sendo, na sua grande maioria, distúrbios neurais assintomáticos relacionados ao plexo lombar (nervos iliohipogástrico, ilioinguinal, cutâneo lateral da coxa, genitofemoral, femoral, safeno e obturatório) e plexo sacral (nervos glúteo superior e inferior, pudendo, tibial, sural, plantares medial anterior e posterior, fibulares comum, superficial e profundo).

Os resultados apresentados foram satisfatórios, sendo que 90% dos atletas mostraram melhora frente aos quadros apresentados.

 

Untitled-3

Figura 3: Análise postural.

Fonte:

 

Conclusão

A osteopatia postural vem para identificar e corrigir as alterações posturais e hoje integra as informações advindas dos captores disfuncionais ao SNC. A regulação corporal envolve a correção das disfunções corporais, sejam elas nas alterações de densidade tecidual ou nas posturas viciosas estáticas.

Portanto, vale ressaltar que as disfunções podem afetar todos os tecidos do corpo: músculos, nervos, articulações, ligamentos, tendões, fáscias, vísceras, entre outros. Então, podemos reconhecer importância da Osteopatia Postural como elemento facilitador no processo de autocura do corpo.

 

Referências

BARRAL, J. P.; CROIBIER, A. Manual Therapy for the Cranial Nerves. Churchill Livingstone Elsevier, 2009.

BRICOT, B. Posturologia. 2. ed. São Paulo: Ícone, 2001.

CHAITOW, L. Osteopatia Manipulação e Estrutura do Corpo. 2. ed. São Paulo: Summus Editorial, 2004.

MEDICAPTEURS. S-Plate. Disponível em: <www.medicapteurs.com/en/products/4/s-plate>. Acesso em: 16 ago. 2016

MOORE, K. L.; DALLEY, A. F. Anatomia Orientada para Clínica. 5. ed. Rio de Janeiro: Guanabara Koogan, 2006.

 

VILLENEUVE, P. H.; PARPAY, S. Examen clinique postural. Rev. Podologie, 1991.



Deixe um Comentário

O seu endereço de email não será publicado Campos obrigatórios são marcados *

Você pode usar estas tags e atributos de HTML: <a href="" title=""> <abbr title=""> <acronym title=""> <b> <blockquote cite=""> <cite> <code> <del datetime=""> <em> <i> <q cite=""> <strike> <strong>