Influência do sistema visceral nas recidivas das disfunções musculoesqueléticas

Escrito por: Márcio Massahiko Ogido

Se você trabalha com Osteopatia há algum tempo, deve ter percebido que as disfunções do sistema musculoesquelético estão presentes em grande parte dos pacientes no seu consultório. Mesmo não sendo a causa primária dos sintomas ou da patologia, é extremamente importante que o terapeuta restaure a fisiologia dos segmentos acometidos e possibilite uma boa liberdade artrocinemáticos e osteocinemáticos.

É muito comum, também, pacientes que procuram o terapeuta com dores agudas osteomioarticulares, muitas vezes com postura antálgica ou até com limitações dos movimentos básicos do dia a dia, porém sem relato de trauma ou algum movimento mais vigoroso que possa ter desencadeado aquela situação. Talvez você tenha até ouvido do seu paciente: “Dormi muito bem, mas, quando acordei, estava travado!”.

Tente-se lembrar daqueles pacientes que você corrigiu as disfunções estruturais, e no final da sessão ele te agradeceu pelo alívio dos sintomas, porém na sessão seguinte as disfunções estavam lá da mesma forma e no mesmo lugar. E essa situação se repete, com esse paciente e outros também. Pode ser que até tenha se sentido um pouco frustrado, não é?

Uma das possibilidades desses fatos estarem ocorrendo pode ser devido a uma adaptação desse segmento ao sistema visceral. O órgão pode desequilibrar o organismo de várias formas, uma delas é pela variação do seu volume. Algumas situações são bem simples de exemplificar esse mecanismo, por exemplo: logo que fizemos uma refeição mais pesada, existe uma tendência a mantermos uma extensão do tronco como tentativa de aliviar a pressão sobre o estômago. Assim como quando realizamos um procedimento cirúrgico, é comum adotarmos posicionamentos que retirem a tensão sobre o local, como em uma apendicectomia, costuma-se adotar uma posição de flexão, lateroflexão direita e rotação direita do tronco.

É da natureza básica de cada ser vivo a busca constante pela sobrevivência, para isso o organismo adota uma série de medidas que favoreçam esse processo, seja ele a nível microscópico, como celular, bioquímico e energético ou a nível macroscópico, como uma postura por exemplo.

Um dos mecanismos indispensáveis para a vida do indivíduo é o bom funcionamento visceral. Sabe-se que, além da função normal do órgão, ele deve ter uma boa mobilidade entre os tecidos adjacentes para que a sua fisiologia esteja operante. Além desses fatores, o “espaço” ocupado por ele deve estar de acordo com as suas necessidades volumétricas.

Durante a avaliação e tratamento, é possível analisar o indivíduo de várias maneiras, como as relações metaméricas, fasciais e musculares, porém podemos enxergá-lo como se ele fosse formado por diversos compartimentos. A própria fáscia que recobre todo o nosso corpo funciona como um “envelope”. Nos membros existem vários compartimentos que delimitam os músculos e o sistema neurovascular. O crânio é uma calota óssea que contém o Sistema Nervoso Central (SNC) e toda a sua rede vascular. O coração é um envoltório muscular preenchido por sangue.

As vísceras também estão contidas dentro de um envoltório musculoesquelético, por exemplo: o pulmão está dentro da caixa torácica, os intestinos se encontram dentro da cavidade abdominopélvica (figura 1).

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Figura 1: O esquema mostra uma víscera (esfera azul) dentro de um envoltório musculoesquelético (quadrado).

Em situações que geram um aumento do volume desse órgão, e os tecidos à sua volta não permitem a adaptação desse espaço, podem favorecer uma sobrecarga mecânica nesse órgão pelo aumento da pressão (figura 2). Também pelo contrário, podem ocorrer ocasiões em que a víscera está em um estado que ele diminui o seu volume, e se os tecidos adjacentes não permitem essa adaptação, diminuindo o espaço à sua volta, o tecido dessa estrutura pode trabalhar em tensionamento (figura 3).

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Figura 2: O esquema demonstra um aumento do volume visceral, porém não ocorre uma adaptação da parede musculoesquelética, gerando um aumento da pressão sobre o órgão.

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Figura 3: O esquema mostra uma diminuição do volume visceral sem que a parede musculoesquelética se adapte a esse novo volume. As setas em verde demonstram a tensão ligamentar e fascial gerada no órgão e exemplifica como ele trabalha em sobrecarga de tensão.

 

Para que não ocorram pressões ou tensões que dificultem o bom funcionamento do órgão, a parede musculoesquelética deve se adaptar ao volume da víscera que ele envolve (figura 4).

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Figura 4: Esse modelo demonstra as adaptações do sistema musculoesquelético em relação à sua víscera interna.

Podemos representar esse mecanismo na prática analisando, por exemplo, um processo de aumento do volume do cólon sigmoide.

Anatomicamente, o cólon sigmoide se localiza superior e internamente sobre a fossa ilíaca esquerda.

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Figura 5: Cólon sigmoide

Para facilitar a visualização das adaptações da parede musculoesquelética, utilizaremos o seguinte modelo:

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Figura 6: Vista frontal (esquerda) e vista lateral (direita).

As possíveis adaptações poderiam acontecer da seguinte forma (figuras 7 e 8):

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Figura 7: Adaptações de uma congestão.

Em uma sequência de adaptações, poderia ocorrer o seguinte, no plano frontal:

1 – Aumento do volume sobre a fossa ilíaca esquerda.

2 – Abertura da asa ilíaca externa (para aumentar o espaço do órgão).

3 – Aumento do tônus do glúteo médio (para tracionar a asa ilíaca para fora).

4 – Fechamento do ísquio e púbis.

5 – Cabeça do fêmur desloca medialmente (acompanha o acetábulo).

6 – Rotação externa do fêmur (ativação dos abdutores em cadeia cinética fechada).

7 – Patela desvia para lateral.

8 – Rotação externa da tíbia.

9 – Calcâneo varo.

10 – Elevação do arco medial.

Se pensarmos nessas adaptações como as disfunções osteopáticas do sistema musculoesquelético, poderíamos colocar da seguinte forma:

1 – Ilíaco em outflare.

2 – Sacro posterior unilateral esquerda ou TED adaptação ao outflare.

3 – Espasmo do glúteo médio.

4 – Adução da cabeça do fêmur.

5 – Rotação externa da cabeça do fêmur.

6 – Rotação externa da tíbia.

7 – Rotação póstero-externa do calcâneo.

8 – Chopart alto (rotação externa do navicular e interna do cuboide).

9 – Superioridade das cunhas.

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Figura 8: Adaptações no plano sagital.

Algumas das compensações no plano sagital seriam as seguintes:

1 – Aumento do volume sobre a região abdominopélvica.

2 – Diminuição do tônus dos músculos abdominais.

3 – Aumento do tônus dos músculos extensores da lombar.

4 – Aumento da lordose lombar.

5 – Anteversão pélvica.

6 – Hiperextensão de joelho.

7 – Plantiflexão.

As disfunções osteopáticas poderiam ser:

1 – Hipotonia dos músculos abdominais.

2 – Espasmo dos músculos extensores da coluna.

3 – Extensão bilateral da lombar.

4 – Ilíaco anterior.

Nesse exemplo, mostramos como uma variação do volume do cólon sigmoide pode gerar adaptações no sistema musculoesquelético. Portanto, manobras estruturais apenas atuariam sobre a consequência e as reincidências dessas disfunções ocorrerão certamente.

Embora pareça um raciocínio lógico, não devemos afirmar que esse mecanismo sempre vai acontecer quando ocorre essa condição visceral. Diversos fatores podem influenciar esse segmento (figura 9):

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Figura 9: Fatores que influenciam o cólon sigmoide.

Considerando a complexidade e perfeição do corpo humano, não é possível afirmar quais são as causas das disfunções, para isso devemos utilizar ferramentas que permitam que o próprio organismo do paciente direcione para um sistema ou segmento, e não o terapeuta conduzir o tratamento baseado no seu conhecimento.

Dentro desse pensamento, o Idot utiliza os testes referenciais, como a manobra de convergência podal ou o teste do parietal, que direcionam para qual sistema (estrutura, víscera, postura, nutrição, crânio e informativa) o corpo necessita de ser tratado. Em cada sistema, o terapeuta dispõe de avaliações específicas para conduzir o tratamento.

É imprescindível que osteopata busque constantemente o conhecimento da estrutura, funcionamento e movimento do corpo humano, porém, ao tratar o paciente, ele deve ser apenas um instrumento facilitador do processo de autocura do paciente, sendo que quem decide o que deve ser feito é o corpo do paciente e não o terapeuta.

Referências Bibliográficas:

BUSQUET, L. As cadeias fisiológicas. Fundamentos do Método Busquet: tronco, coluna cervical, membro superior. França: Edições Busquet, 2013.

KAPANDJI , A. I. Fisiologia Articular. Rio de Janeiro: Guanabara Koogan, 2007.

MOORE, K. L. Anatomia orientada para a clínica. Rio de Janeiro: Guanabara Koogan, 2007.

NETTER, F. H. Atlas de Anatomia Humana. Porto Alegre: Artmed, 1998.

SOUZA, M. Z. Entre parâmetro e certezas da avaliação palpatória



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