Evidências científicas e a filosofia osteopática – Nobel de Medicina 2016


Um dos elementos mais fascinantes dentro da osteopatia é o seu conteúdo filosófico, e como ela é atual. O estudo vencedor do Prêmio Nobel de Medicina de 2016 vem ao encontro das ideias do Dr. Andrew Taylor Still e nos oferece mais uma evidência das Leis Osteopáticas.

Desde a década de 90, o biólogo japonês Yoshinori Ohsumi, de 71 anos, estuda as células de leveduras e descobriu que elas possuem um mecanismo de autofagia das suas próprias organelas para redistribuir energia para as funções mais essenciais à sua sobrevivência.

O processo é ativado quando a célula está diante de um ambiente externo/interno hostil, como restrição nutricional, infecções (bactérias, fungos e/ou vírus), má formação de proteína e a necessidade de renovar estruturas envelhecidas; nessas condições, a célula se compromete a eliminar alguma organela e a gerar nutrientes para o seu próprio consumo. Esse fenômeno também é chamado de reciclagem celular, que promove uma fonte de energia rápida e “peças” para a construção de outras proteínas ou até reconstruir a organela fagocitada (figura 2).

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Figura 1: Autofagia

Fica claro que as células possuem um nível de inteligência básica para as situações que ameaçam sua sobrevivência, o que vem ao encontro da filosofia osteopática de autocura, proposta pelo Dr. Still, que afirma: “todos os organismos possuem ferramentas inatas para eliminar e/ou reprimir qualquer doença, uma vez que não haja obstáculos”.

Para que a autocura prevaleça, ela depende da liberdade de circulação dos fluídos corporais que nutrem as células do organismo, o que Dr. Still chamou de lei da artéria. A lei da artéria não se limita ao sangue arterial, temos que considerar todos os fluídos corporais, como o sangue venoso, o conteúdo linfático e liquórico. Esses líquidos são os responsáveis pela nutrição celular, e se ela estiver comprometida em quantidade e qualidade, segundo a pesquisa japonesa ganhadora do prêmio Nobel, cria um ambiente onde a célula pode morrer de “fome” e a estratégia seria de ativar o mecanismo de autofagia celular diante da adaptabilidade nutricional, permitindo uma segunda chance de vida à célula.

Se a célula abre mão de algumas estruturas para a sua sobrevivência, poderíamos pensar que sua função também poderá estar comprometida até que se reestabeleça um ambiente adequado para a sua longevidade. Essa condição atinge outro princípio osteopático da relação estrutura e função, em que a integralidade estrutural (a nível celular) também é fundamental para o êxito funcional. Caso o ambiente continue desfavorável, as células podem não funcionar tão bem, ou seja, a homeostase do corpo fica comprometida.

Conhecendo a estrutura da célula: membrana, citoplasma, organelas, núcleo e genes, também temos que considerar o citoesqueleto (figura 3), o qual é formado por microtúbulos e microfilamentos, que conectam o núcleo à membrana celular por meio das integrinas. Essa relação mecânica é observada nos estudos do Dr. Donald Ingber, que diz que as pré-tensões mecânicas (biotensegridade) podem atingir todos os níveis biológicos dos tecidos, desde a pele, passando pelos ossos, músculos, fáscias, órgãos, até o nível celular do núcleo e seu conteúdo genético. O grande mérito da pesquisa premiada é a identificação de 15 genes fundamentais para a ativação da reciclagem celular, localizados no núcleo da célula e que, esse fenômeno, ocorre de forma muito semelhante nas células humanas.

Pela teoria da biotensegridade, forças anormais aplicadas na membrana celular poderiam influenciar os canais de cálcio da célula, abertura de fechamento dos poros da membrana nuclear e até o aumento, redução ou má formação das proteínas pelas transcrições do DNA.

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Figura 2: Citoesqueleto

Ainda é difícil quantificar alguns fenômenos da Osteopatia, mas, conhecendo evidências como essas, podemos acreditar que o toque terapêutico nos tecidos pode atingir os genes das células e, porque não, oferecer uma segunda chance à vida celular e sua renovação. Com o progresso metodológico das pesquisas, é certo que o Dr. Still ficaria muito contente com o que a ciência está produzindo, consolidando ainda mais os princípios osteopáticos.

O Prêmio Nobel de 2016 em Medicina é mais uma evidência que mostra que a vida se autorregula, que é estruturalmente unida e capaz até de praticar a autodigestão com o simples propósito de viver.

Viva a Osteopatia!

Referências Bibliográficas

INGBER, D. E. Mechanotransduction at a distance: mechanically coupling the extracellular matrix with the nucleus. Nature Reviews Molecular Cell Biology 10, 75-82, 2009.

MLA. The 2016 Nobel Prize in Physiology or Medicine – Press ReleaseNobelprize.org.Nobel, 2016.

SOUZA, M. Z. Entre parâmetros e certezas da avaliação palpatória osteopática. Presidente Prudente: IDOT, 2016.

STILL, A. T. La filosofia de la osteopatia https://andorrafarm.com/comp…orra/ . Autobiografia de A. T. Still, 1899.



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