Aspectos Osteopáticos em Indivíduos com Disfunções Craniomandibulares. “A Liberação da Avenida da Expressão”

Dr. Hermínio Marcos Teixeira Gonçalves, C.E.I

Introdução

 

Somos afortunados porque em nosso íntimo habita não um, mas dois grandes primatas. E os dois, juntos, nos permitem construir uma imagem de nós mesmos consideravelmente mais complexos do que a que a biologia nos tem apresentado nos últimos 25 anos. A ideia de nós, humanos, como criaturas puramente egoístas e perversas, com uma moralidade ilusória, carece de revisão. Se em nossa essência somos grandes primatas, como eu suponho, ou se pelo menos descendemos da mesma linhagem dos outros grandes primatas, como todo biólogo supõe, nascemos com uma gama de tendências que vão das mais vis às mais nobres. [...] Como esse animal conquistou a dominância sobre todos os demais, é ainda mais importante que ele se olhe com honestidade no espelho para conhecer tanto seu arqui-inimigo como seu aliado, pronto para ajudar a construir um mundo melhor.1

Essa noção de construção de imagem e se olhar com honestidade no espelho, a qual Franz de Wall nos traz, vai muito mais além do que o próprio autor supunha ao escrever o último parágrafo de seu livro Eu, primata. Interessantes pesquisas descritas por Torstem Liem revelam que podemos ficar de frente a uma projeção de pessoas com faces diferentes, faces contentes, neutras ou sérias e cada uma dessas faces permanecer em nossa frente por apenas 400 milissegundos, ou seja, projeções rápidas. E ao se colocar diversos eletrodos em nossa face para se mapear a atividade elétrica muscular a fim de se realizar uma leitura de qual seria a face que estaríamos tendo durante as projeções, contente, neutra ou séria, seria bastante fácil copiarmos as faces se o que estivesse em nossa frente fosse uma face neutra. Porém, se fosse projetada uma face contente, teríamos mais dificuldade em repeti-la. E se fosse projetada uma face triste, faríamos imediatamente uma copia dela. Se acelerarmos as projeções para 40 milissegundos, seguiríamos copiando essas faces e não é apenas os músculos da face que são ativados, e sim uma cascata hormonal e nosso sistema neurovegetativo.2

Outra pesquisa interessante afirma que se em um grupo de 100 pessoas 99 estão com rostos felizes e uma com o rosto fechado, você olhará mais para essa cara fechada por razões filogenéticas (lute ou fuja). E sua face ficará um pouco fechada, pois vai copiá-la (interconexão), por isso se temos um indivíduo não muito contente, ele influenciará outros3.

Darwin (1965) argumenta que a manifestação das emoções e o seu reconhecimento fazem parte de uma herança biológica e são válidos para os animais, dentre eles os humanos, independentemente de regiões, línguas e sociedades. As teorias evolutivas tratam da maneira como as emoções foram herdadas pelos humanos, podendo ter sido selecionadas nos hominídeos. Essa questão remonta ao trabalho pioneiro de Darwin, que enumera uma série de traços da expressão emotiva nos homens e nos animais. As emoções, segundo Darwin, podem ser explicadas por meio de três princípios, a saber:

i) Princípio dos hábitos associados úteis – ações despertadas no organismo que tiveram alguma utilidade em estados de espírito distintos no passado e que, ao menor sinal desses estados no presente, há uma tendência em repeti-las por associação e hábito, mesmo que não tenham função aparente.

ii) Princípio da antítese – quando um estado de espírito contrário é induzido, há uma tendência involuntária para a execução de movimentos opostos, mesmo que nunca tenham sido úteis, e. g. a docilidade dos cães.

iii) Princípio das ações diretas do sistema nervoso – ações reconhecidas como indicadoras de certos estados de espírito são diretamente atribuídas à constituição do sistema nervoso, desde o início, independentes do hábito e da vontade.

Com esses princípios postos, Darwin explica como as emoções foram herdadas por sucessivas gerações, sem atentar para o fator linguístico e cultural, por serem esses estágios mais tardios do ponto de vista evolutivo.

Para James (1890), a emoção é a percepção de diferentes mudanças corporais que denotam um estado emotivo. Assim, as emoções são resultado da percepção das reações fisiológicas e comportamentais desencadeadas no corpo por determinado evento externo ou interno. Assim como Darwin, essa abordagem leva em consideração a função preservadora da espécie, mas propõe uma ordem inversa na manifestação das emoções. Ainda segundo James, o corpo desencadeia as emoções; para Darwin, o corpo é o lugar onde as emoções são manifestadas e a área da face principalmente o sistema estomatognático e a articulação temporomandibular respondem muito as alterações da emoção. Os segmentos do corpo humano, assim como as funções hegemônicas, estão anatômica e funcionalmente relacionadas de tal forma que se endereçando a uma parte do indivíduo, toca-se o conjunto dele.7 As posições das ATM, língua e mandíbula, pescoço e cabeça, coluna vertebral, região inframandibular e passagem de ar estão inter-relacionados, caracterizando um octógono de prioridade funcional.8-9

Compreender que o corpo humano é totalmente ligado por um tecido músculo-aponeurótico, que interfere no sistema osteoarticular, permite ao profissional que se prontifica a fazer uma análise postural entender os processos de adaptação descendentes e ascendentes do corpo, a fim de reinserir o equilíbrio que foi perdido devido à instalação de uma deformidade10, o que em osteopatia pode ser considerado como uma cadeia disfuncional. A alteração de uma unidade biomecânica provocará, pelo refinamento dos sistemas de controle postural, a acomodação das estruturas corporais próximas ou distantes dela11 e isso pode ser notado em forma de perda de mobilidade tridimensional nos diferentes tecidos. A desorganização de um segmento do corpo implicará uma nova organização de todos os outros, assumindo então uma postura compensatória, a qual também influenciará as funções motoras dependentes.7 Sequelas podem ser encontradas isoladas ou em grupos de sinais e sintomas que estão associadas com as relações estruturais falhas e/ou atividades funcionais mandibulares alteradas (NORMAN, 1991).

Dentro do consultório do osteopata é muito comum encontrar indivíduos que trazem estes aspectos da emoção e a consequência tecidual no sistema craniomandibular muito relacionado. O estudo das Desordens Temporomandibulares (DTM) envolve polêmicas e desacertos e, diante da vasta sintomatologia, torna-se impossível seu tratamento sem uma visão global dos pacientes.12 Uma lesão na área mandibular é, eventualmente, capaz de modificar o jogo normal do tônus postural.13 A presença de desequilíbrios entre a postura da mandíbula em relação ao restante do sistema esquelético aparece, frequentemente, como fatores contribuintes para o surgimento de problemas do quadrante superior do corpo com efeitos na mastigação, deglutição, fonação e respiração.10 Qualquer mudança nos músculos da mastigação tem efeito em outros músculos da cabeça e do pescoço.14 A posição de repouso adequada da articulação temporomandibular é a posição correta do côndilo na cavidade glenoide e na eminência com a área de contato do côndilo na parte anterior da cavidade glenoide até o centro da eminência, tendo um espaço articular posterior ocupado pela lâmina bilaminar e um espaço superior sendo que o menisco articular se encontra interposto entre a parte posterior da eminência e a parte anterior da cavidade, estando com a pressão articular normal, tensão normal do sistema cápsula ligamentar e atividade eletromiográfica normal dos músculos para restabelecer a relação cêntrica de repouso (estática) e a capacidade funcional e normal da articulação, que depende da relação crânio cervical normal (posição do crânio em relação à coluna cervical) e da relação crânio mandibular (disfunção craniana – oclusão).15 Este estudo tem como finalidade observar e discutir a presença desses aspectos em um determinado grupo de indivíduos.
Navegar em torno desses caras
População e amostra

A população deste trabalho constitui-se em pacientes que procuraram atendimento osteopático e se enquadraram em um ou mais itens da tabela 1, tendo-os como principais queixas ou não.

 

Golpe na face

Trauma dentário

Ortodontia

Bruxismo

Chupar o dedo

Traumas de parto

Abuso sexual oral

Neuralgia trigeminal

DTM

Sinusite

Paralisia de Bell

 

Tabela 1 – Elementos de enquadramento do indivíduo para estar apto ao tratamento.

 

A amostra é constituída por 30 indivíduos, sendo 19 do sexo feminino e 11 do sexo masculino. Destes chegaram até o final dos atendimentos apenas 22 indivíduos, sendo 16 mulheres e seis homens com idade média de 31,6 anos. Enquanto o grupo formado por mulheres tinha em média 33 anos, o grupo formado por homens possuía em média 28,16 anos. Os pacientes foram subdivididos em ordem numérica de 1 a 22, e determinados os itens da tabela 1 a que se enquadravam e qual sua queixa principal, conforme a tabela 2.

 

PACIENTE

TABELA 1

QUEIXA PRINCIPAL

1

Ortodontia

Cefaleia

2

Neuralgia trigeminal

Dor facial

3

Trauma dentário

Cefaleia

4

DTM

Gastrite

5

Golpe na face

Depressão

6

Paralisia de Bell

Perda de mobilidade

7

Ortodontia

Bruxismo

8

Neuralgia trigeminal

Dor facial

9

Trauma de parto

Cervicalgia

10

Ortodontia

Cefaleia

11

DTM

DTM

12

Sinusite

Cefaleia

13

Trauma de parto

Depressão

14

Sinusite

Dor torácica

15

Golpe na face

Dor dentária

16

DTM

Depressão

17

Ortodontia

Cefaleia

18

DTM

Ansiedade

19

Chupar dedo

Insônia

20

Sinusite

Gastrite

21

Trauma dentário

Cefaleia

22

Abuso sexual oral

DTM

 

Tabela 2 – Correlação entre itens da tabela 1 e queixa principal.

 

Para a realização desta pesquisa, os indivíduos foram admitidos mediante a aprovação do formulário de consentimento informado. Inicialmente, os pacientes foram submetidos a uma avaliação osteopática por meio da ausculta global e local, proposta pelo osteopata francês Jean Pierre Barral, para determinar e realizar o tratamento osteopático da disfunção encontrada, que teve como resultado nove pacientes com disfunção visceral, sendo três deles apresentando disfunção de fígado, dois com disfunção de pulmão, dois com disfunção de estômago, um com disfunção de esôfago, um com disfunção de intestino, três com disfunção estrutural no segmento cervical e 10 com disfunções no crânio, conforme a tabela 3.

 

PACIENTE

QUEIXA

DISFUNÇÃO CRANIANA

2

Dor na face

Osso Temporal

3

Cefaleia

Osso Maxilar

6

Perda de Mobilidade na Face

Nervo Facial

7

Bruxismo

Osso Temporal

13

Depressão

Crânio em extensão – SEB

15

Dor dentária

Osso Etmoide

17

Cefaleia

Crânio em Torção à Direita

18

Ansiedade

Flexão Lateral com Rotação

19

Insônia

Osso Palatino

21

Cefaleia

Sutura Fronto-Maxilar

Tabela 3 – Disfunções diagnosticadas nos pacientes com ausculta de crânio.

O grupo foi submetido a tratamento osteopático para normalização das disfunções encontradas. Os pacientes foram acompanhados durante cinco semanas, sendo realizado um protocolo de tratamento que incluiu a sequência de técnicas (tabela 4) e a normalização da disfunção encontrada na avaliação osteopática. Na quinta sessão, foi realizado um protocolo de boca sugerido por John Upledger (tabela 5). Todos os pacientes foram submetidos à escala visual de intensidade de sua queixa, que vai de 0 a 2 (leve), de 3 a 7 (moderada) e de 8 a 10 (intensa), sendo aplicada antes e após cinco sessões.

 

CV4

Charneira L5S1

Charneira T12L1

Charneira C7T1

OAA

Normalização do Sacro

Normalização da SEB

Frontal

Parietal

Temporal

Maxilar

Mandíbula

 

Tabela 4 – Sequência de técnicas dos atendimentos nas quatro primeiras sessões.

Ossos nasais

Ossos zigomáticos

Ossos maxilares

Ossos palatinos

Dentes e gengivas

Ossos temporais

Compressão/descompressão da ATM

OAA

CV4

Tabela 5 – Protocolo de boca sugerido por John Upledger aplicado na quinta sessão.

Resultados

 

Os pacientes relataram melhora do quadro clínico relacionado a cada queixa específica e uma mudança considerável na EVA, conforme a tabela 6.  Outro aspecto que chamou a atenção foi a mudança na qualidade de se expressar dos indivíduos, ou seja, tornaram-se mais falantes, mais expansivos e comunicativos, embora esse aspecto não tenha sido abordado antes dos atendimentos para que se pudesse receber a devida avaliação.

 

PACIENTES

EVA INICIAL

EVA FINAL

1

7

1

2

8

1

3

6

1

4

9

2

5

8

1

6

7

2

7

8

3

8

8

0

9

9

0

10

8

1

11

8

2

12

6

0

13

9

2

14

7

1

15

6

0

16

10

3

17

6

0

18

9

1

19

6

1

20

5

2

21

9

0

22

7

2

Tabela 6 – Escala Visual Analógica de Intensidade antes e após as cinco sessões.

Discussão

 

O objetivo deste trabalho não é validar a capacidade do trabalho osteopático sobre a diminuição ou não da intensidade da queixa, embora isso tenha ficado bem explícito observando os resultados, e sim de trazer para a discussão os variados aspectos que a osteopatia consegue relacionar em um grupo específico de pacientes que apresentam determinadas histórias de vivências e sinais que procuraram o atendimento osteopático. A confrontação de seus resultados fica dificultada por não haver pesquisas científicas similares. Apesar de o diagnóstico por meio da ausculta ser contestado em relação à reprodutibilidade e confiabilidade, encontramos mudanças relevantes na pontuação da EVA. Baseado nas limitações do nosso estudo, consideramos necessário avançar com esta pesquisa, aumentando a população e controlando melhor os dados.

 

Conclusão

 

Os resultados deste estudo revelam que o tratamento osteopático pode ser eficiente na busca e melhora das disfunções que podem ser a causa das queixas apresentadas e que o aspecto emocional e o funcional se mostram caminharem em estreita relação. Relação esta que deve mesmo ser levada em consideração tanto no âmbito clínico como na investigação científica para que tenhamos uma osteopatia cada vez mais baseada em todos os aspectos que envolvem o desenvolvimento humano.

 

Anexos

 

11

Escala Visual Analógica de Intensidade – EVA

 

Referências Bibliográficas

1 DE WAAL, F. Eu, primata. Porque somos como somos. 2. ed. São Paulo: Cia das Letras, 2007.

2 EKMAN, P. Facial expression and emotion. American Psychologist, 48, 384-392, 1993.

3 LIEM, T. An osteopathic approach to the treatment of trauma and emotional integration, 2016.

4 DARWIN, C. The expression of the emotions in man and animals. Chicago: University of Chicago Press, 1965.

5 PERES, O. D. A manifestação da emoção na fala: estudo perceptual com falantes nativos e não nativos. São Paulo: Universidade de São Paulo, 2014.

6 JAMES, W. The principles of Psychology. New York: Holt, 1980.

7 SOUCHARD, P. E. Reeducação Postural Global. São Paulo: Ícone, 1986.

8 SIMÕES, W. A. Octógono da prioridade funcional e a teoria das rédeas musculares. R. Fac. Odontologia. 37(1). P. 45-41. Julho 1996.

9 CATACH, C.; HAJJAR, D. Má oclusão e postura. In: (coord.) SAKAI, E.; COTRIM-FERREIRA, F. A.; MARTINS, N. S. Nova visão em ortodontia e Ortopedia Facial. São Paulo: Livraria Editora Santos, 2008.

10 MACHADO, M. R.; LIMA, R. H. M. Abordagem fisioterápica no tratamento de desordem temporomandibular associada à protrusão da cabeça: Serviço ATM. 2004.

11 FARAH, E. A.; TANAKA, C. Postura e mobilidade da coluna cervical em portadores de alterações miofuncionais. Revista da APCD. São Paulo, 51(2). p. 171-5. mar/abr. 1997.

12 GOMES, P. A. Alterações Posturais e Desordens Temporomandibulares. Artigo de Revisão, 2005.

13 GAGEY, P. M.; WEBER, B. Posturologia. Regulação e distribuição da posição ortostática. 2. ed. São Paulo: Manole, 2000.

14 OKESON, J. P. Fundamentos de oclusão e desordens temporomandibulares. Porto Alegre: Artes Médicas, 1992.

15 INSTITUTO DOCUSSE DE OSTEOPATIA E TERAPIA MANUAL – IDOT. Apostila do Curso. 2006.

16 BROOKES, D. Osteopatia craneal. 2. ed. Barcelona: Ediciones Bellaterra, 1982.

17 BURR, H. S. The fields of life. Ballantine Books, 1972.

18 CHAITOW, L. Cranial manpulation: theory and practice. 2. ed. Livingstone, 2005.

19 FRYMANN, V. A study of rhythmic motions of the living cranium. JAO. 1971.

20 KORR, I. Bases fisiológicas de la osteopatía. Madrid: Mandala ediciones, 2009.

21 PALOMEQUE, F. Terapia osteopática guia para la formación. Nizan Ed., 2013.

22 SUTHERLAND, W. G. The cranial bowl. Mankato: Free Press Co., 1939.



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