A importância da liberação corpo e mente em pediatria

Escrito por: Prof° Ft. Adalberto Kfouri Filho

Como dizia a grande osteopata Beryl Arbuckle: “não é melhor para economia da vida corrigir a causa antes que os efeitos sejam produzidos?”.

Sabemos que a Osteopatia possui caráter curativo como também preventivo, porém, antes de entendermos como, por meio da Liberação Corpo e Mente, podemos tratar bebês e seus pais, é de extrema importância conhecermos o mecanismo fisiológico do parto e as intervenções, consideradas por muitos os principais traumas físicos e emocionais da vida de um ser humano.

A natureza, em sua sabedoria plena, prescreve hormônios do parto que deixam a mulher fora do seu estado usual, para que assim possam ocorrer todas as transformações para que esta entre na condição de mãe e acolha seu filho em sua “chegada”.

1 -  Modelo hormonal fisiológico para o trabalho de parto:

O sistema límbico, estrutura primitiva do cérebro, é o responsável por estimular grandes centros reguladores hormonais durante o trabalho de parto e o parto, resultando em picos de ocitocina, endorfinas, epinefrina e norepinefrina e prolactina entre outros. Esses sistemas são os mesmos para todos os mamíferos.

Para que o parto proceda de forma natural e espontânea, essa parte do cérebro deve ter precedência sobre o neocortex, ou cérebro racional. Tal mudança de funcionamento cerebral pode ser ajudada por uma atmosfera de silêncio e privacidade, com, por exemplo, luz fraca e pouca conversa, e sem expectativas de racionalidade da mulher em trabalho de parto. Sob tais condições a mulher intuitivamente escolherá os movimentos, sons, respiração e posições que ajudarão a parir o bebê da maneira mais fácil.

Estudos comprovaram que a fisiologia hormonal da mulher é atrapalhada por práticas como indução do parto, anestesia, cirurgia cesariana e separação da mãe e filho após o nascimento, como descrito a seguir.1

1.1 – Fisiologia hormonal do parto:

1.1.1 – Ocitocina:

Produzida no hipotálamo e armazenada na pituitária, de onde é liberada por meio de pulsações.

Esse hormônio também é secretado durante a relação sexual, sendo responsável pelo orgasmo masculino e feminino, e pela amamentação.

É   um hormônio crucial na reprodução e media o que nós chamamos de reflexo de ejeção: o reflexo de ejeção do esperma com o orgasmo masculino e o reflexo de introjeção do esperma com o orgasmo feminino; o reflexo de ejeção fetal no parto; no pós parto, o reflexo de ejeção da placenta e o reflexo de ejeção do leite na amamentação.1

A ocitocina também causa as contrações rítmicas do trabalho de parto e seu nível atinge o pico durante este através da estimulação dos receptores alongados na parte baixa da vagina quando o bebê desce. 2

Os altos níveis de ocitocina durante o trabalho de parto e o parto também beneficiam o bebê. Estudos demonstraram que a ocitocina materna chega ao cérebro do bebê durante o trabalho, quando age protegendo as células cerebrais fetais desligando-as, diminuindo o consumo de oxigênio em um momento em que os níveis de oxigênio disponíveis para o feto são naturalmente baixos.3

Nos minutos pós parto, ambos mãe e bebê estão com os níveis de ocitocina elevados. Neste momento, a produção de ocitocina no recém nascido é favorecida pelo contato visual e pele a pele entre mãe e bebê. Os níveis no recém nascido subsistem durante a primeira hora pós parto, mas permanecem acima do normal por ao menos 4 dias.4

Durante a amamentação a ocitocina media o reflexo de saída do leite que é liberada por pulsações a medida que o bebê mama. Durante todo o período de lactação a ocitocina continua a agir mantendo a mãe calma, sendo que no bebê esses níveis também se elevam pela ação do nervo vago.5 Pesquisas comprovaram que mães que amamentaram por mais de sete semanas eram mais calmas, quando seus bebês tinham seis meses de idade, do que mulheres que não amamentaram.6

Pesquisas recentes implicaram a ocitocina nas relações de interações entre indivíduos,7 como no contato entre amigos, casais. Acredita-se que esta pode refletir seu papel baixando a atividade da amigdala cerebelar: uma estrutura cerebral que processa emoções de medo e agressividade. Por tais comprovações, a ocitocina é considerada por alguns autores como hormônio do amor.8

1.1.2 -  Beta-endorfina:

Secretada pela glândula pituitária e por outras partes do cérebro e sistema nervoso, atuam como opióide natural. Também considerada um hormônio do stress, liberada sob condições de dor, atua como analgésico e supressor do sistema nervoso imunitário. Efeito que pode ser importante para prevenir que o sistema imunológico da mãe aja contra o feto, cujo material genético é estranho ao seu.

Os níveis dessa substância também estão elevados no corpo durante o sexo, gravidez, parto e amamentação. Estudos demonstraram que durante o trabalho de parto os níveis de beta-endorfina e corticotrofina atinge os encontrados em homens no ápice do esforço físico de uma maratona.9 Tais elevadas taxas ajudam a mulher em trabalho a transmutar a dor e entrar no estado alterado de consciência que caracteriza um parto não perturbado.

Durante o trabalho, altos níveis de beta-endorfina irão inibir a liberação de ocitocina. Isso explica porque quando a dor ou o estresse são muito intensos, as contrações desaceleram, induzindo o trabalho de acordo com o estresse fisiológico e psicológico da mulher.10

A beta-endorfina também facilita a liberação de prolactina durante o trabalho, preparando os seios da mulher para a lactação e cuidando dos estágios finais de maturação dos pulmões do bebê.11 Os níveis de beta-endorfina atingem um pico na mulher minutos após o parto e também está presente no leite materno, induzindo uma prazerosa dependência mutua entre a mãe e filho na relação que está por iniciar-se. 8,12

1.1.3 – Adrenalina e Noradrenalina

Também conhecidas como epinefrina e norepinefrina, ou, coletivamente, catecolaminas. Secretadas pela glândula supra-renal, como respostas a estresses, quando ativam o SNS para “luta ou fuga”. Entretanto após um trabalho de parto não perturbado, um aumento abrupto nos níveis de catecolaminas, pode ativar o “reflexo de ejeção fetal”, algumas contrações mais fortes serão desencadeadas, facilitando e agilizando o parto do bebê.

Estudos correlacionaram a noradrenalina com o comportamento maternal instintivo. Em experiência com ratos, aqueles deficientes em noradrenalina não cuidaram de seus filhotes após o parto, até que a substância fosse re-injetada em seu organismo.13

1.1.4 – Prolactina

Conhecida como hormônio do instinto materno, a prolactina é o principal hormônio para a síntese do leite materno e a amamentação. Estudos humanos sugerem que a prolactina aumenta o estado de alerta e de agressão protetora da mãe, além de ser considerado o  hormônio da entrega e da submissão.14

Na relação da amamentação esses efeitos ajudam a mãe colocar as necessidades de seu bebê em primeiro lugar.

2 – Impacto das Drogas e dos Procedimento Cirúrgicos

Em levantamento realizado em 2005 nos EUA, 55% das mulheres tiveram condução – estimulação ou aceleração do trabalho de parto com ocitocina sintética. Estas além de não atuarem como a ocitocina produzida pelo corpo, podem interferir no sistema natural de produção da mulher, alterando o sistema calmante e criador do estabelecimento da relação entre mãe e filho.15

Estudos demonstraram que a epidural inibe a produção de beta-endorfina, de catecolaminas e acarreta diminuição dos níveis de ocitocina mesmo por algum tempo após o final de seu efeito. Portanto, uma mulher realizando um parto com epidural, não produzirá as fortes contrações que do trabalho, que contribuem para que o nascimento do bebê seja teoricamente rápido e fácil. A mulher passa a usar, portanto, seu próprio esforço, frequentemente realizado contra a força da gravidade, para compensar 16, 17, 18

Os medicamentos ministrados pela epidural entram imediatamente na corrente sanguínea e vão igualmente ao bebê. Alguns medicamentos chegam a levar 8 horas para reduzir sua concentração na corrente sanguínea dos bebês recém nascidos. 19, 20

Pesquisa francesa, analisou o efeito das epidurais no relacionamento mãe e bebê, ao ministrarem epidurais em ovelhas em trabalho de parto. Percebeu-se que as ovelhas não tiveram comportamento materno normal. Quando a droga foi ministrada no início do trabalho de parto, sete entre oito dessas mães não mostraram interesse pelos filhotes por ao menos trinta minutos. Em análise, observou-se baixo índice de ocitocina no cérebro dessas ovelhas. O efeito foi parcialmente revertido ao ministrarem ocitocina no cérebro dessas recém mães.21,22

Em outro estudo, mães que receberam epidurais descreveram maior dificuldade no cuidado de seus bebê um mês após o parto.

2.1 – Cirurgia Cesariana

Segndo a OMS os índices de cirurgias cesarianas no Brasil são os maiores do mundo, chegando a 55% dos partos, sendo que em hospitais privados, os dados indicam que os procedimentos cirurgicos chegam próximo a 90%.

Nesse procedimento o trabalho de parto é muito curto ou inexistente. Os picos de ocitocina, endorfinas, catecolaminas e prolactina são ausentes. Para completar, mãe e bebê são normalmente separados durante algumas horas pós parto.

Essa separação precoce poderá provocar implicações significativas na orquestração hormonal prevista descrita anteriormente, que inclui picos dos “hormônios do amor”, prazer, excitação e maternidade, que irão aumentar a ligação entre mãe e filho.

3 – Caso Clínico

Paciente J.A.O.B.C, 4 meses de vida, cujos pais tinham como queixa principal provável fusão sutural. Médico sugeriu investigação mais detalhada e que exames fossem repetidos no mês seguinte. Paciente nascido no dia 15/10/2013, via cirurgia cesariana. Nasceu hipotônico. Desenvolveu pneumonia e manteve-se internado na UTI por 17 dias. Também foi diagnosticado com laringomalacia e provável síndrome.

Diante de todas as disfunções de parâmetros maiores, chamou-me a atenção quanto a possibilidade de fusão sutural e quanto a adaptabilidade do sistema nervoso do bebê e dos pais devidos traumas sofridos no parto, com ponto marcante para o tempo de separação entre eles, devido internação.

Paciente já estava sob cuidados de osteopata, portanto já apresentava certo grau de flexibilidade craniana.

3.1 – Tratamento:

- 1ª sessão: Foi identificado torsão sacral associada a rigidez de tubo dural.

A técnica empregada foi de balanço do tubo dural.

Terapeuta sentado, de frente para bebê, com contato da mão caudal sob o sacro e mão cefálica sob occipital. Após engajamento do tecido foi realizado leve estímulo de tração até que se iniciasse desenrolar fascial.

Pais presentes na sala, sendo que, ao iniciar desenrolar fascial, sugeri que mãe se sentasse de frente para criança e acompanha-se todo o processo que envolveu o acompanhar desse desenrolar, a favor e contra a gravidade. Ao final do processo, espontaneamente, mãe e filho começaram a chorar, esta o tomou em seus braços e instintivamente o bebê procurou seu seio.

Após o processo, observou-se forte comoção e elo afetivo entre mãe, pai e filho.

Foi realizado uma segunda sessão, na qual foi identificada restrição de mobilidade do hemitórax direito, associado a restrição da mobilidade do fígado e tensão sobre ligamento hepato-renal. Também foram tratadas com técnicas de membrana o osso temporal esquerdo e a sutura esfeno-petrosa esquerda.

Ao repetir exames do crânio, exclui-se a possibilidade de fusão sutural não havendo necessidade cirúrgica.

4 – Conclusão:

O presente texto, está longe de ser um estudo científico, nenhum tipo de análise quantitativo ou qualitativo foi realizada pré e pós tratamento, e não há nenhum interesse em afirmar que o tratamento reverteu a carência dos processos hormonais gerado pelos traumas do parto e pós parto. Porém, em análise subjetivo e depoimento de pais, a percepção durante a sessão foi de que o processo do parto estava se repetindo, porém, de uma maneira na qual pai, mãe e bebê estavam “presentes” e participativos no processo. Relataram uma forte sensação de bem estar e vinculação ainda maior entre todos os envolvidos, principalmente quando tratava-se da relação mãe e filho.

Na segunda sessão, trinta dias após a primeira, o relato da mãe foi de estar sentindo-se mais próxima do filho, mais segura nos cuidados com bebê e com melhor auto-estima, exatamente como nos estudos que compararam tais comportamentos a mulheres que passaram por parto natural sem intervenções.

É de suma importância para a prática clínica que tais hipóteses sejam analisadas por estudos científicos, com dados comparativos, para que se possa comprovar os efeitos fisiológicos do tratamento osteopático nos bebês, bem como em seus pai.

 

1

Figura 1. Demonstração de tratamento osteopático no bebê.

5 – Bibliografia:

1. Odent M. Scientification of Love. Revised ed. London: free association books; 2001.

2. Dawood MY, Raghavan KS, Pociask C, Fuchs F. Oxytocin in human pregnancy and parturition. Obstet Gynecol. Feb 1978;51(2): 138-143.

3. Tyzio R, Cossart R, Khalilov I, et  al. Maternal oxytocin triggers a transient inhibitory switch in GABA signaling in the fetal brain during delivery. Science. Dec 15 2006;314(5806):1788-1792.

4. Leake RD, Weitzman RE, Fisher DA. Oxytocin concentrations during the neonatal period. Biol Neonate. 1981;39(3-4): 127-131.

5. Uvnas-Moberg K. The Oxytocin Factor. Cambridge MA: Da Capo Press; 2003.

6. Chapman M. Oxytocin has big role in maternal behaviour: interview with Professor K Uvnas-Moberg. Australian Doctor. 1998, 7 August: 38.

7. Zak PJ, Kurzban R, Matzner WT. Oxytocin is associated with human trustworthiness. Horm Behav. Dec 2005; 48(5): 522-527.

8. Kirsch P, Esslinger C, Chen Q, et al. Oxytocin modulates neural circuitry for social cognition and fear in humans. J Neurosci. Dec 7 2005;25(49): 11489-11493.

9.  Sarah J. Buckley, Gentle Birth, Gentle Mothering: A Doctors Guide to Natural Childbirth and Gentle Early Parenting Choices. Dez 2008, Celestial Arts

10. Jowitt M. Beta-endorphin and stress in pregnancy and labour. Midwifery Matters. 1993;56:3-4.

11. Mendelson CR, Boggaram V. Hormonal and developmental regulation of pulmonary surfactant synthesis in fetal lung. Baillieres Clin Endocrinol Matab. Jun 1990;4(2):351-378.

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13. Thomas SA, Palmiter RD. Impaired maternal behavior in mice lacking norepinephrine and epinephrine. Cell. Nov 28 1997;91(5): 583-592.

14. Uvnas-Moberg K. Physiological and psychological effects of oxytocin and prolactin in connection with motherhood with special reference to food intake and the endocrine system of the gut. Acta Physiol Scand Suppl. 1989;583:41-48.

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21. Krehbiel D, Poindron P, Levy F, Prud’Homme MJ. Peridural anesthesia disturbs maternal behavior in primiparous and multiparous parturient ewes. Physiol Behav. 1987;40(4):463-472.

22. Levy F, Kendrick KM, Keverne EB, Piketty V, Poindron P. Intracerebral oxytocin is important for the onset of maternal behavior in inexperienced ewes delivered under peridural anesthesia. Behav Neurosci. Apr 1192;106(2):427-432.создание и продвижение сайтов недорогочастота запросов в googleюридические консультации в киевеонлайн генератор паролей



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