Atuação da Osteopatia Postural como elemento facilitador do processo de regulação corporal

Escrito por: Profa. Dra. Isadora Lessa Moreno

A Osteopatia Postural é uma filosofia de diagnóstico e tratamento que tem como objetivo a busca do equilíbrio estático e dinâmico do corpo. Esse equilíbrio pode ser entendido como um comportamento que emerge de um contínuo e dinâmico relacionamento entre informação sensorial e atividade motora, incluindo os componentes sensórios-motores e musculoesqueléticos envolvidos na busca de uma determinada postura 1.

A palavra postura deriva da palavra positura (na língua italiana) que tem o significado original de posição, atitude ou hábitos posturais 2. Tribastone 2 entende a postura como a posição mantida pelo corpo, automática e espontaneamente, em harmonia com a força gravitacional e predisposta a passar do estado de repouso ao movimento. Segundo Chaitow 3, a postura ideal é aquela na qual os diferentes segmentos do corpo, ou seja cabeça, tórax e o abdômen estão verticalmente equilibrados um sobre o outro, de modo que o peso seja suportado pela estrutura óssea com um mínimo de esforço e tensão nos músculos e ligamentos.

Um corpo bem equilibrado significa uma máquina funcionando perfeitamente, com a menor quantidade de esforço muscular e consequentemente com melhor saúde e força em sua vida diária 4. Sob tais condições, os músculos funcionam mais eficientemente e posições ideais são proporcionadas aos órgãos torácicos e abdominais 5.

A manutenção da postura é regida por um sistema bastante complexo. Envolve um conjunto de reflexos de natureza visual, proprioceptiva e vestibular que procuram regular com a máxima economia cada movimento 2,6. As informações sensoriais provenientes desses “captores” 6, assim denominadas as estruturas responsáveis por detectar informações internas (endorreceptores) e externas (exorreceptores), auxiliam o sistema nervoso central na realização dos ajustes posturais 7.

A visão é o sistema capaz de fornecer informações sobre a localização e a distância de objetos no ambiente, o tipo de superfície onde se dará o movimento e a posição das partes corporais uma em relação à outra e ao ambiente. Adicionalmente, o sistema proprioceptivo ligado à atividade muscular extraocular e à via oculocefalogíria fornece informação endoceptiva que submete os músculos do pescoço e dos ombros aos músculos dos olhos 6,7.

Os sistemas proprioceptivos, que surgem dos receptores tendinosos e musculares, mecanoceptores articulares e baroceptores plantare fornecem informações sensoriais para o controle postural. Esse conjunto de sistemas fornece ao corpo informações sobre o ambiente, permitindo a orientação necessária à medida que se movimenta ou fica estático em relação às próprias partes do corpo, seu apoio e superfície do solo 6,7.

O sistema vestibular funciona em comum com os outros dois para manter o controle postural, sendo que o componente sensorial, localizado no ouvido interno, está ligado ao processador central, localizado na ponte ou núcleo vestibular e cerebelo. O processador recebe e integra os sinais, combina com informações proprioceptivas e visuais, e as envia para o terceiro componente, o controle motor, o qual se utiliza dos músculos oculares e da medula espinhal 7.

Quando as informações sensoriais provenientes dos captores supracitados são harmônicas, elas geram um sistema estável, com mínimo custo energético e uma postura equilibrada na gravidade. A boa postura está associada à saúde, pois é a posição que envolve o menor gasto de energia, distribui o esforço sobre os vários ossos, músculos, tendões, ligamentos e discos e obtém o máximo de eficiência do corpo 5.

Entretanto, quando as aferências sensoriais são incoerentes por conflitos sensoriais, elas geram um sistema instável, com maior custo energético e a postura alterada na gravidade. A má postura é uma relação defeituosa entre as várias partes do corpo que produz uma maior tensão sobre as estruturas de suporte e onde ocorrem um equilíbrio menos eficiente sobre sua base de apoio 5.

A manutenção de uma postura inadequada, denominada posição viciosa estática, acarreta diversos problemas para o corpo humano, tais como aumento do estresse total e distribuição desse estresse para estruturas menos capazes de suportá-lo, o que resulta na sobrecarga indevida nos ossos, articulações, músculos, ligamentos, entre outras.

Essa sobrecarga, denominada de força anormal contrária, pode se manifestar de várias formas, como ilustrado na figura 1. Quando mantidas por posições viciosas estáticas elas podem provocar dores, enrijecimentos, contraturas, limitações aos movimentos, queda do rendimento muscular, propensão a cãibras, distensões, tendinites, entre outras 6.

 

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 Figura 1: Forças anormais contrárias sobre um segmento vertebral.

Fonte: disponível em internet – http://pt.slideshare.net/felipecarpes/aula-9-biomec-ossos-e-articulao.

 

Portanto, um corpo em equilíbrio postural possibilita a manutenção e qualidade da estrutura (tecido ósseo, capsular, ligamentar, muscular, vascular, neural, entre outros) e, consequentemente, determina a máxima eficiência funcional do organismo. Se a saúde depende da integridade da estrutura, a estrutura quando viciosa é considerada causa fundamental da doença.

Posição viciosa estática

Uma posição viciosa estática pode se manifestar através de alterações nos três planos de avaliação – sagital, frontal e horizontal. No plano sagital (figura 2), verifica-se o desalinhamento do plano entre as escápulas e os glúteos, seja ele anterior ou posterior; e o desequilíbrio das flechas lombar, cervical e occipital (aumento ou diminuição).

 

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 Figura 2: Alterações posturais no plano sagital. Indivíduos sem assimetrias (2A) e indivíduos com assimetrias no plano sagital (2B, 2C, 2D e 2E).

Fonte: Bricot 6.

 

No plano frontal (figura 3), pode-se observar alterações das linhas entre as pupilas; entre os tragus da orelha; entre os lábios; cintura escapular (linha entre os ossos estilóides radiais) e cintura pélvica (linha entre as cristas ilíacas).

 

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Figura 3: Alterações estáticas no plano frontal.

Fonte: Bricot 6.

 

No plano horizontal (figura 4), pode-se observar recuo (rotação posterior) ou avanço (rotação anterior) de uma nádega em relação à outra ou um ombro em relação ao outro.

 

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Figura 4:Alterações estáticas no plano horizontal.

Fonte: Bricot 6.

 

Rosa et al. 8 descreveram as principais alterações que ocorrem na estrutura dos músculos e do tecido conjuntivo causados pela manutenção de uma postura inadequada. Segundo esses autores, ocorrem alterações no número de sarcômeros em série, aumento na proporção de tecido conjuntivo com deposição aleatória de suas fibras, aproximação dos elementos da matriz e formação de ligações cruzadas anormais. Essas alterações contribuem para redução na extensibilidade do tecido conjuntivo, provocando perda de flexibilidade, diminuição no arco de movimento, proporcionando lesões e diminuição na força de contração máxima.

Atuação da Osteopatia Postural

O Osteopata Postural deve ter claro em sua mente que ao avaliar um paciente ele não deve focar sua atenção na doença. Focar no parâmetro maior pode ser um erro filosófico que comprometerá todo o tratamento. Essa visão, muito presente na Medicina tradicional, faz com que todo cuidado de saúde seja feito no próprio local da doença e, quando fazemos isso, nos distanciamos de sua causa.

Essa visão pode ser exemplificada com o paciente que chega ao consultório queixando-se de dor no quadril devido a artrose. Erramos ao pensar que é a artrose que faz o indivíduo sofrer, uma vez que a mesma não manisfesta sintomas quando o paciente não está submetido às forças anormais contrárias (“a dor é pior quando fico em pé, …quando me deito não sinto dor”). A artrose e a dor têm a mesma origem: as forças anormais contrárias e o desequilíbrio tônico postural que as mantêm.

Nesse contexto, a Osteopatia Postural busca com seus instrumentos de avaliação e tratamento evitar que as forças anormais contrárias instaladas perturbem a estrutura e a função do segmento em sofrimento.

A figura 5 ilustra um paciente que chegou ao consultório queixando-se de dor bilateral nos joelhos. O mesmo chegou a buscar procedimento cirúrgico mas teve que prolongar por motivos pessoais. Segundo o paciente, a dor dos joelhos era em “queimação” sendo interna no joelho direito e na parte lateral do joelho esquerdo (sugestivo de sofrimento ligamentar). Para o paciente, ficar em pé ou mantido numa posição por muito tempo era desconfortável. Na escala visual analógica (EVA) de dor, paciente referiu EVA 7-8.

 

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Figura 5:Alterações estáticas no plano horizontal.

Fonte: Arquivo pessoal.

 

Toda incapacidade funcional é abordada pela Osteopatia, haja vista que uma disfunção osteopática articular, visceral ou craniana caracteriza-se por uma perda funcional. Contudo, quando um Osteopata clássico encontra uma posição viciosa estática, ele não reconhece essa situação como um parâmetro menor.

Assim, uma abordagem clássica da Osteopatia no paciente mencionado seguiria, por exemplo, com técnica de thrust para lateralidade externa do joelho esquerdo, técnica de thrust para lateralidade interna do joelho direito, stretching dos rotadores externos do quadril esquerdo e stretching dos adutores do quadril do lado direito (figura 6).

 

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Figura 6:Exemplos de técnicas estruturais para correção de lateralidade interna e externa de joelho comthrust (6A),stretchingdos rotadores externos (6B, 6C) e stretching dos adutores do quadril (6D).

Fonte: Apostila de Osteopatia Estrutural – IDOT, 2015.

 

Estudar a postura é enxergar e entender todas as estratégias que o corpo adotou para buscar a homeostasia. O Osteopata que não entende a importância da postura na quebra de homeostase é incapaz de integrar o paciente em uma unidade, de acordo com os princípios ensinados por Dr. Andrew Taylor Still.

Dessa forma, a Osteopatia Postural surge para complementar e preencher uma lacuna no tratamento osteopático. Os princípios de autorregulação e autocura, graças a capacidade do corpo de possuir todos os elementos necessários para eliminar ou reprimir suas enfermidades, somente é alcançado uma vez que não haja obstáculos. As entradas sensoriais quando desreguladas são consideradas obstáculos, assim como: perna curta verdadeira, alterações do sistema dento-oclusal, cicatrizes patológicas, microgalvanismos, disfunções viscerais e/ou obstrução nas vias de comunicação. Esses elementos são responsáveis pela manutenção das disfunções osteopáticas e pela cronicidade e recidivas aos consultórios.

Utilizando como exemplo o mesmo paciente ilustrado na figura 5, a Osteopatia Postural busca encontrar as posições viciosas estáticas. Quando encontramos uma posição viciosa estática é fundamental ajudarmos o corpo do paciente a retomar o seu equilíbrio, uma vez que quando corrigidas eliminamos as forças anormais contrárias.

A figura 7 ilustra com setas as assimetrias observadas, sendo: figura 7A – presença de básculas, principalmente ao nível da cintura pélvica (mais baixo à direita e mais alto à esquerda); tendência de um joelho valgo à direita e joelho varo à esquerda; figura 7B – pé valgo direito e pé varo esquerdo, considerados desarmônicos.

 

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Figura 7:Assimetrias posturais observadas. 7A – vista frontal no teste posturoestático; 7B – apoio unipodal no teste de captor podal.

Legenda: as setas indicam assimetrias.

Fonte: Arquivo pessoal.

 

Por meio de testes referenciais, a Osteopatia Postural encontra as assimetrias posturais e coloca em evidência a participação ou não das entradas sensoriais e/ou obstáculos sobre os desequilíbrios posturais. Atualmente, quatro testes iniciais são utilizados, sendo: posturo-estático, posturo-dinâmico, limitação de rotação de cabeça e romberg postural. Qualquer assimetria encontrada nesses testes revela que o sistema de controle postural, também denominado de sistema tônico postural (STP), está descalibrado.

Com essas informações, a manobra de convergência podal, proposta por Villeneuve PH et al. 9 e Thomas et al. 10 possibilita por meio do exame do tônus dos músculos rotadores dos membros inferiores determinar se o STP está desregulado por influência dos pés, olhos, sistema dento-oclusal, cicatrizes e/ou vísceras.

Esse teste propôs uma nova abordagem à Osteopatia Postural. Até então, todos os pacientes que chegavam ao consultório eram submetidos à correção dos captores podal e ocular, considerado o eixo mais importante no trabalho postural. Porém, nem todos os pacientes apresentavam necessariamente assimetrias nesses sistemas.

A conduta da Osteopatia postural no paciente ilustrado na figura 7 foi baseada nos testes mencionados. Foram evidenciadas alterações nos testes posturo-estático e de limitação de rotação de cabeça. Complementada pela manobra de convergência podal, observou-se influência apenas dos captores podais. Nessa sequência, realizou-se diagnóstico dos tipos de pés, sendo encontrado nesse paciente pés desarmônicos sem duplo componente, que favoreciam o aparecimento de básculas e rotações ao nível da cintura pélvica (no pé valgo, a pelve se encontrava baixa e com rotação anterior; e no pé varo, a pelve se encontrava alta e com rotação posterior).

Assim, após duas sessões de tratamento das incapacidades funcionais, esse paciente foi submetido ao tratamento das posições viciosas estáticas. Uma palmilha de recalibração postural foi diagnosticada e utilizada pelo mesmo durante 45 dias. Após seu uso, o paciente relatou melhora das dores dos joelhos, sendo: joelho direito EVA 0 e joelho esquerdo EVA 3. Vale ressaltar que o paciente ainda se encontra em tratamento.

Conclusão

Uma visão mais moderna da Osteopatia reconhece que o processo de regulação corporal envolve a correção das disfunções, das posições viciosas estáticas e alterações de densidade.

Se o corpo é considerado uma unidade, então faz parte do pensamento de um osteopata compreender que os tecidos do corpo: articulações, músculos, nervos, ligamentos, tendões, fáscias, vísceras, entre outros estão interdependentes.

Essa interdependência contribui para que uma disfunção, seja ela no nível estrutural, visceral, craniano ou mesmo em aspectos perceptivos, possa gerar uma posição viciosa estática. Nesse mesmo sentido, uma posição viciosa estática pode favorecer, por exemplo, hiper ou hipomobilidades no nível articular, espasmos ou hipertonias ao nível muscular, alterações de densificação tecidual ou até mesmo uma autodesvalorização da sua forma.

Ressalta-se que se alguma dissonância dentro do corpo ou uma força no ambiente externo impedir a sua própria adaptabilidade, por exemplo entradas sensoriais desreguladas, presença de perna curta verdadeira, mordida cruzada, cicatriz patológica, entre outras, a doença poderá se manifestar. Portanto, faz-se importante reconhecer o papel da Osteopatia Postural como elemento facilitador do processo de autorregulação do corpo.

 

Referências

  1. Barela JA. Estratégias de controle em movimentos complexos: ciclo percepção-ação no controle postural. Revista paulista de educação física, supl.3:79-88, 2000.
  2. Tribastone F. Tratado de exercícios corretivos aplicados à reeducação motora postural. São Paulo: Manole, 2001.
  3. Chaitow, Leon. Osteopatia Manipulação e Estrutura do Corpo. 2ª edição. São Paulo: Summus Editorial, 2004.
  4. Goldthwait JE, Brown LT, Swaim LT, et al: Essentials of Body Mechanics in Health and Disease, 5th ed. Philadelphia, PA: JB Lippincott, 1956.
  5. Kendall FP, Mc Creary EK, Provance PG. Músculos, provas e Funções. 4ed. São Paulo: Manole, 1995.
  6. Bricot, B. Posturologia. 2 ed. São Paulo: Ícone, 2001.
  7. Kleiner AFR, Schlittler DXC, Sánchez-Arias MR. The role of visual, vestibular, somatosensory and auditory systems for the postural control. Rev Neurocienc 2011;19(2):349-357.
  8. Rosa GMMV, Gaban GA, Pinto LDP. Adaptações morfofuncionais do músculo estriado esquelético relacionado à postura e o exercício físico. Fisioterapia Brasil, 2002;3(2).
  9. Villeneuve PH, Parpay S. Examen clinique postural. Rev. Podologie, 1991;59:37-43.
  10. Thomas A, Ajuriagerra J. Etude sémiologique du tonus musculaire. Paris, Flammarion, 1949.

 
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